Ajus e Joê, as chinesas dos bichos



O relacionamento entre portugueses e chineses ao longo dos séculos de presença lusitana no extremo Oriente ora foi pacífico e próximo, ora bem distante e conflituoso. E a imagem dos chineses retida pelos portugueses teve, quase sempre, uma expressão exarcebada porque os espíritos aventureiros gostaram de vincar o seu fascínio e as línguas de trapos de espalhar a sua crítica desconcertante. Mas estas manifestações sentimentais exageradas nunca formaram par com o que sucedeu em Lisboa em Novembro de 1911. A nota que li no 2º volume de Portugal – Século XX: crónica em imagens, do jornalista Joaquim Vieira, atraíu-me e tenho vasculhado o Diário da Câmara dos Deputados, o Diário do Senado, os jornais e as revistas da época à procura de notícias das famosas chinesas que abalaram Lisboa em poucos mas intensos dias.


imagem publicada na Ilustração Portuguesa, de 4 Dezembro
legenda: As chinesas Ajus e Joê e a mesa das operações
  (Clichés de Benoliel)

Verdade seja dita, tenho cansado toda a gente com o meu entusiasmo e surpresa perante a dimensão dos desacatos. Parece que tudo teve origem n´ O Século, que divulgou a notícia, espalhada de boca e boca, de filas intermináveis que se formaram à porta do Hotel Algarve, na baixa de Lisboa, onde duas chinesas, ditas milagrosas, retiravam bichos dos olhos dos pacientes que sofriam de cegueira, de cataratas e de outras maleitas dos olhos. O país, republicano e laico, que julgava os conspiradores monárquicos, relatava os motins em Vinhais que acabaram com um grupo de saudosos do regime deposto pela revolução de Outubro havia um ano, e que confiscava os bens da igreja e das ordens religiosas, não poderia tolerar nem crenças nem superstições e cortou o mal pela raíz, à má fila, expulsando as chinesas. O povo revoltou-se e de que maneira. 
 imagem publicada na Ilustração Portuguesa, de 4 Dezembro
legenda: as ofalmologistas de Shangae agradecendo as manifestações populares
(Clichés de Benoliel)


Foram criadas comissões que, destemidas, defenderam a honra das curandeiras, proibidas de exercer ´a sua industria´, e lutaram pela ´liberdade medica´ junto do ministério do interior, do parlamento, da associação médica e dos jornais, montando vigílias no hotel onde as curandeiras milagrosas estavam instaladas e recebiam os doentes, terminando o movimento popular em comícios tumultuosos onde não faltaram tiros, mortos, feridos e detidos, estabelecimentos comerciais destruídos e acções judiciais em barda.

A maioria das publicações atribuiu a culpa à monarquia que pretendeu um povo ignorante e supersticioso, chegando a comentar-se num jornal com ironia que, por sorte, Sun Yat-Sen tinha obra a ser feita no Celeste Império porque, não tendo Macau reconhecido as suas habilitações académicas e não se pondo cobro a métodos de tratamento pouco convencionais, arriscaria o país a vê-lo instalado e cheio de clientes dispostos a atestar a sua competência. Talvez, digo eu, tivesse conseguido obter resultados junto de seres tresloucados que perturbavam o sossego público, divertindo-se a assustar as pessoas pelas ruas da capital com piruetas e saltos e, ainda por cima, «de camisola e ceroulas». Outras publicações, num esforço de compreensão do fenómeno, ouviram o testemunho de quem se sujeitara a tratamentos e que «não vendo quase nada» passara a ver «perfeitamente». E divulgavam opiniões de quem, sendo democrata, não pactuava com o justificado cumprimento da lei que determinou a expulsão das curandeiras do país. Em nome da transparência, relatavam os factos tão objectivamente que até facilitavam o trabalho das autoridades, identificando os membros das comissões que se foram organizando e dos pacientes, revelando o nome, a morada e a profissão para não haver enganos.

 

  legenda: Dada a proximidade entre os olhos e o sotão, averiguou-se que os 
bichos que as chinezas extraem por estes são ... macaquinhos
A  Capital, 20 Novembro




Eram tantas as comissões populares a clamar justiça que o Presidente da Câmara dos Deputados, não se sabendo se falando a sério ou brincando com a situação, resolveu, antes de iniciar os trabalhos da assembleia, dizer: «attendendo a uma multidão que está á porta do parlamento, reclamando que se não prohibam as chinezas de exercer clinica, parece-me melhor nomear-se uma commissão que se entenda com os reclamantes», o que provocou enormes risadas. E mais risadas conseguiu Jacinto Nunes, deputado do Partido Republicano, que entrando na galhofa e aludindo às vistas curtas dos representantes de outros partidos, comentou: «há tanta cataracta por ahi …» Com efeito, o parlamento dedicou ao assunto das chinesas muito do seu tempo, tendo depois dos graves tumultos aproveitado a situação, deturpando, convenientemente, os factos. «As´chinezas dos bichos´prohibidas de fazer curativos», é o título d´A Capital do dia 21 e que conduziu à revolta popular. Esclarece-se que as «duas chinezas que ha dias estão em Lisboa e que, ao que muita gente affirma, operam verdadeiros milagres no curativo das doenças de olhos, sendo designadas popularmente por chinezas dos bichos, deram hoje que falar de si. Tendo-se dirigido para o hotel, onde ellas estão, mais de cem pessoas a fim de consultarem e receberem tratamento, tal se não pode effectuar, por ellas declararem que lhes tinha sido proibido o exercicio da sua profissão. Immediatamente se formou uma commissão (...) que se dirigiu a conferenciar com o dr. Eusebio Leão (...); a commissão esteve falando com o chefe do districto, o qual disse que não tinha ainda prohibido que as chinezas fizessem tratamento, mas que o ia fazer em obediencia á lei. Na rua juntou-se muito povo que commentava o facto (...)».

Em consequência, outros jornais davam conta de um comício e da multidão indignada que nomeou várias comissões a serem divididas entre o ministério do interior, o parlamento e o consultório de um advogado. No tribunal de Boa-Hora, constava, havia já um processo contra as chinesas proposto por médicos. Também se dizia que o dono do hotel recebera cartas e telegramas a pedir que não deixasse as milagreiras saírem, pelo que se constituíram comissões de vigilância nas suas imediações. Novas comissões se dirigiram aos jornais solicitando que fosse divulgada a reunião do dia seguinte, na Rotunda da Avenida, «para se dirigirem ao consulado chinês e passar uma procuração a um advogado para as defender». 

Deu-se conta da multidão que seguiu para o ministerio do interior, mas, chegada ao Terreiro do Paço «onde já se encontravam alguns reporteres, foi nomeada uma commissão para ir falar com o ministro». No entanto, «como o ministro não podesse attendel-a, foi recebida pelo sr. José do Amaral, chefe de gabinete, que respondeu que o ministro nada podia fazer, por se tratar de um caso contra a lei. Como a commissão teimasse em ser recebida pelo ministro, este accedeu aos seus desejos, aconselhando os commissionados a dirigirem-se ao parlamento e ahi expozessem os factos. A comissão pediu mais ao ministro que permittisse a estada das chinezas mais tres dias em Lisboa, pois constava já que ellas tinham ordem de expulsão. O ministro respondeu que não tinha conhecimento de tal facto, e que tal poihibição dimanava do sr. Inspector da policia administrativa mas que ia dar as providencias para que o pedido fosse attendido. Sahindo do ministerio, a commisão deu conta do seu mandato, resolvendo a multidão dirigir-se ao parlamento». 

«Effectivamente», publica-se, «cerca das tres horas da tarde, centos de pessoas chegavam a S. Bento, sendo a commissão recebida pelo sr. dr. Brito Camacho (…) disse que nada podia fazer nem o parlamento, porque este não iria contra a lei, mas que se dirigisse á Associação dos medicos Portuguezes. A comissão (…) resolveu procurar o sr. Botto Machado que (…) disse que iria tratar com urgencia do que era pedido, no parlamento. Egual affirmativa fizeram os seus colegas Alfredo Ladeira e Camillo Rodrigues». O advogado Mário Monteiro disse à comissão que por se tratar de uma obra humanitária, tomaria a seu cargo o caso e o levaria para o tribunal, sem retribuição «caso o parlamento não attendesse o pedido». 

Isto foi motivo para um grande grupo de pessoas, dando vivas à República e seguindo uma comissão que a seu cargo tomou a organização de uma manifestação a favor da liberdade clínica para as chinesas milagrosas e referindo o apoio do deputado Botto Machado, desse a volta à cidade «de trem», sendo muito aclamada. Porque a questão tinha apaixonado a cidade, ouviu-se um ´especialista em doenças d´olhos´, que revelou que as curas das chinesas mais não eram do que casos de «suggestão e de mero charlatanismo», explicando que já estava apto a dar mais esclarecimentos «deveras interessantes sobre as chinezas (...) e sobre as quaes alguns jornaes, uns poços de sciencia, veem fazendo-lhes um reclame desaforado e que pode prejudicar o publico». Sobre os bichos retirados dos olhos, indaga-se o especialista: «Quaes bichos?», negando primeiro a sua existência; depois, explica que afinal, «os únicos são os echynocócus no globo ocular, apparecendo só em certas doenças e nunca em conjunctivites granulosas que é do que padece a maior parte da população que nas chinezas acredita» e conclui que «aquillo é uma cena de prestidigitação muito bem feita». Mas aproveitando a entrevista, pergunta ao jornalista: «Quer ouvir dois casos interessantes?» E continuou: «Vem aqui um homem á consulta (…) com um aspecto risonho, dizendo ter ido ás chinezas e estar quasi bom. Examinei-o com redobrada attenção e os syntomas que tinha d´uma ulcera conservavam-se (…)». O jornalista pergunta pelo homem, gostaria de falar-lhe, mas já tinha saído do consultório e, em face disso, continua o médico: «Mas mais curioso é o caso que foi presenciado por um enfermeiro que hontem lá foi … Apresentou-se um pobre homem que se queixava muito dos olhos (…) eram necessários 1$000 réis para a consulta, e como o homem respondesse ter sómente tres tostões, uma das curandeiras affirma-lhe ter bichos e que lhe tiraria alguns já, e que, voltando, lhe tirava os restantes.(...)», dando o mote para as acusações posteriores. 


imagem publicada na revista Brasil- Portugal, 1.dez.1911

No meio de pequenas notícias escreve-se n´A Capital: «Porque é que os medicos se mostram tão indignados pelo caso das chinezas e não se indignam, com a mesma violencia, contra as artes e industrias de Mme Broiullard?», a famosa vidente de quem, diariamente, os jornais publicitavam anúncios.

 imagem publicada na revista Brasil- Portugal, 1.dez.1911

Apesar de toda a organização do movimento popular as instituições não estiveram pelos ajustes. No dia 22 de Novembro, já a agitação nas ruas era tremenda, foi rejeitada, conforme se lê nas Actas da Câmara dos Deputados, «ao Sr. Botto Machado a urgência sobre o assunto do caso da proibição ás duas chinesas, actualmente em Lisboa, de continuarem a praticar operações oftalmológicas», depois do de um outro deputado, Brito Camacho, ter considerado tratar-se de «um caso meramente policial», opinando que o parlamento «não pode ocupar-se de duas mulheres que nem são portuguesas».

imagem publicada na revista Brasil- Portugal, 1.dez.1911

No dia seguinte, o deputado Lopes da Silva, dirigindo-se ao ministro do interior, pede o cumprimento integral das leis de saúde, garantia que obteve.

 imagem publicada na revista Brasil- Portugal, 1.dez.1911


No dia 24, novamente o assunto veio à baila e desculpa-se o deputado Fernão Botto Machado: «Eu caí há poucos dias na ingenuidade de falar aqui nas duas chinesas. Fi-lo, porque fora o Sr. Ministro do Interior que mandara a comissão para o Parlamento. Todos os jornais, todos, o disseram, e o secretário particular do Sr. Presidente da República até afirmara, à mesma comissão, que ia recomendar o assunto, de modo que fôsse tratado em Conselho de Ministros. A ´Lucta´, de hoje, afirmava, ao contrário, que o Sr. Ministro do Interior não tinha feito tal indicação». Brito Camacho informa que, de facto, o ministro não tinha sugerido à comissão que se dirigisse ao parlamento.

 
 imagem publicada na revista Brasil- Portugal, 1.dez.1911

Mas Botto Machado faz finca-pé no que divulgaram os jornais e, apesar do Presidente lhe pedir que se restringisse «ao assunto em discussão» repete as suas boas intenções, afirmando que estava a tratar «do respeito pela raça humana». Explica-se, dizendo que a nota que apresentara era para que se «nomeasse uma comissão de técnicos, médicos, que fôsse averiguar se se tratasse, como se dizia, dum trabalho aproveitável das duas chinesas ou de uma mistificação, tinha por fim não só evitar acontecimentos graves, que podem dar-se, e que só não prevêem os que desconhecem a psicologia das multidões exaltadas pela fé, mas dar solução ás reclamações da multidão, que veio ao Parlamento, e delegou até mim a comissão que me formulou o seu pedido. Procurei também evitar que se dissesse que estávamos aqui a proteger médicos especialistas de doenças de olhos, e procurei, finalmente, obstar a que se realizasse a expulsão das pobres mulheres».
 imagem publicada na revista Brasil- Portugal, 1.dez.1911

Disse, ainda, com a sua boa vontade e sentido de justiça, que a «ordem de expulsão é imprópria da República Portuguesa» e que os governos não podem consentir em expulsões e «muito menos, a duas desgraçadas mulheres, fracas, indefesas e inofensivas». Preocupado com a imagem da República, acrescenta que o país «a não ser para os atropelos graves do direito internacional, ou para os atentados da guerra ou contra o Estado» baniu dos «dicionários a palavra "estrangeiros"», pois, esclarece, em vez de estrangeiros há «a família humana, há cidadãos do mundo, há membros de espécie e da pátria universal, e todos merecem o respeito e protecção». Estas são «as ideias do nosso tempo», conclui, mas ninguém lhe prestou atenção.

  
 imagens publicadas na Ilustração Portuguesa, 4 Dezembro
legenda: As montras da ´Brazileira` do Rocio, depois dos tumultos 
da noite de 26, perfuradas pelo tiroteio 
(Clichés de Benoliel)

O presidente pede-lhe, pela segunda vez, «a fineza de se restringir à ordem» e Afonso Costa, interrompendo, pede licença para perguntar ao presidente a que horas se encerra a sessão, mostrando enfado pelo discurso quilométrico, como o classificou o jornal O Intransigente, conseguindo muitas gargalhadas. Ofendido, Botto Machado defende-se: «a biblioteca que tenho em casa, de livros magníficos, que não possuo só para os ver pela lombada, me dá o direito de piedosamente me rir dos que riem de mim».

 
 imagem publicada na Ilustração Portuguesa, 4 Dezembro
legenda: A loja onde se refugiou o sr. Machado Santos
 (Clichés de Benoliel)

E dirigindo-se ao presidente, pede que o dispensem de concluir a «série de considerações» a que se havia proposto por estar doente e com recomendações médicas de repouso absoluto, pondo um ponto final na sua intervenção: «Estou fatigadíssimo, até pela paixão que me leva a pôr a alma neste debate».

 
imagem publicada na Ilustração Portuguesa, 4 Dezembro
legenda: O Comício do dia 26 na Avenida Almirante Reis 
(Clichés de Benoliel)

Sem amparo, os ânimos do povo se exaltaram e os jornais noticiavam a 26 de Novembro que «por causa das chinezas ha tiros, desordens e prisões».


 
imagem publicada na Ilustração Portuguesa, 4 Dezembro
legenda: A succursal do ´Século´ no Rocio em frente da qual se deu
uma das mais graves colisões entre a guarda republicana e o povo
(Clichés de Benoliel)

Explica-se que o ministro do interior nada podia fazer se a associação dos médicos não reconhecesse o direito ao exercício da profissão pelas chinesas e, tendo a comissão divulgado esta reunião à multidão que aguardava junto à estátua, a revolta foi tão grande que se ouvia gritos de morra o governo. E começaram a chegar forças de infantaria da guarda nacional republicana, outra «da cavallaria», e outra da polícia. «De repente, ouve-se um tiro. O povo agita-se, corre, invade os carros que passavam. As forças fazem fogo para o ar, afim de intimidarem os agitadores. Cahem varias pessoas, que ficaram espesinhadas e feridas. O ministerio do interior é cercado pelas forças, vendo-se á porta uma poça de sangue. Fazem-se varias prisões (...) ás 7 horas, uma força da guarda republicana (…) conduz para o governo civil, 18 presos. (…) No Rocio, no Largo de Camões, e noutros locaes discute-se acaloradamente, receiando-se que se deem tumultos durante a noite. (…) Diz-se que ainda esta noite, reunirá o conselho de ministros para tratar do assumpto. (…) No governo civil a policia está tirando o cadastro aos presos que serão distribuidos pelos varios calabouços».

 
 imagem publicada na Ilustração Portuguesa, 4 Dezembro
legenda:O ´placard´da succursal do ´Século´ estilhaçado
(Clichés de Benoliel)

Mas o assunto ainda não se dava por terminado. Às 4 da manhã, as forças policiais cercaram as ruas da baixa lisboeta. Apesar de ser bastante tarde, foi dado o alarme pelos membros das comissões de vigília. A imprensa revela que «o chefe Gomes inttima a sahida das chinezas» e tudo se passou tão rapidamente que, quando se aperceberam os populares, já os automóveis da polícia as levavam. Pela manhã, regressava a multidão e, ao ter conhecimento do rapto, nomeia nova comissão para, junto das redacções de diversos jornais, apresentar as suas reclamações. Na redacção do República Social, Ladislau Batalha (da Câmara de Senadores), fala à multidão, da janela, explicando que a lei deve ser respeitada, mas o governo também precisa de respeitar a vontade do povo, dando uma no cravo, outra na ferradura.

 imagem publicada na Ilustração Portuguesa, 4 Dezembro
legenda: A marinha aclamada pelo povo no Rocio na manhã de 27 
(Clichés de Benoliel)

A multidão seguiu para a Rotunda onde se encontrava muita gente já, e juntos, dirigiram-se para o Palácio da Delegação da China onde «apenas um criado» pode receber os manifestantes. Dali rumaram ao governo civil onde não obtiveram, novamente, qualquer apoio. E daqui para o Largo de S. Carlos onde se nomearam comissões para, junto das fábricas, divulgarem o rapto e organizarem um comício.

 
imagem publicada na Ilustração Portuguesa, 4 Dezembro
legenda: Os cegos na manifestação ao parlamento 
(vendo-se na fotografia alguns asilados do asilo Feliciano de Castilho) 
(Clichés de Benoliel)

Os jornais divulgaram que cerca das cinco horas da manhã, as chinesas, chorando, se encontravam em Vila Franca de Xira, tendo sido vistas por muita gente. Às oito horas da manhã foram metidas numa carruagem de 2ª classe no comboio de Badajoz, acompanhadas de guardas, regressando os outros polícias a Lisboa, de carro. E indicavam que tinha constado que tinham sido maltratadas à saída do hotel, «chegando a puxar-lhes pelos rabichos».

 
imagem publicada na Ilustração Portuguesa, 4 Dezembro
legenda: A manifestação dos cegos ao ministério do interior
(Clichés de Benoliel)

Ao hotel, informa a imprensa, continuam a chegar pacientes, até da província. Ainda no dia 26, Eusébio Leão, governador civil, justifica em entrevista que a decisão de expulsão se ficou a dever ao exercício ilegal da medicina que exigia mão firme para evitar casos semelhantes, aproveitando a oportunidade para referir que, durante a monárquia, por «politica e por desleixo», não se cumpria a lei. Contou que as curandeiras chinesas foram postas na fronteira com o conhecimento das autoridades chinesas pela perturbação pública que causaram, não podendo tolerar-se um espectáculo tão deprimente que representava a multidão ingénua. E acrescentou: «É preciso ser absolutamente ignorante para acreditar na existencia de bichos d´aquelle tamanho; isto é, como bagos de arroz cosido; nos olhos e nas gengivas. Um pobre ingenuo affirmou-me que de um dos olhos lhe tiraram 7 e do outro 6! É o cumulo do disparate!». E revelou que os bichos, analisados por «uma pessoa competentíssima, eram larvas de moscas». E remata dizendo que se as curandeiras tivessem os poderes que se julgam, viveriam em palácios e não se teriam albergado num modesto hotel.
legenda: ´Panneau´decorativo chinez representando a expulsão
das chinezas dos bichos pelo mandarim Eu-Sé-bio Li-Âo
A Capital, 25 de Novembro

O movimento de protesto, contudo, não afrouxava e ameaçava assumir grande violência, obrigando «a força armada» a intervir pela organização de um comício junto à Igreja dos Anjos com mais de duas mil pessoas, clamando respeito pelo trabalho das chinesas e pelos estrangeiros, e a favor da Constituição que não permite raptos de pessoas. Também discursou o advogado Mário Monteiro que disse ser necessária a união de todos e a continuação da campanha, e concluíu que aos médicos dos olhos não convinha a concorrência das chinesas, atacando Eusébio Leão, como médico e como governador civil. Depois, sob sugestão de outro orador, os presentes dirigiram-se para a Rotunda, onde aguardava um outro grupo de pessoas que os recebeu com palmas, tendo-se realizado outro comício e de onde seguiram para o governo civil. Pela avenida, a multidão foi engrossando, protestando junto às redacções dos jornais, à residência do Presidente da República, pelo que foi chamada a força pública.


imagem publicada na Ilustração Portuguesa, 4 Dezembro
legenda: o povo diante do predio da rua da Padaria no dia 24
(Clichés de Benoliel)

No dia seguinte, A Capital vem dizer que «seria puerilidade attribuir os graves acontecimentos» às «duas chinezas mandadas expulsar de Lisboa». Este caso podia ter sido solucionado com tolerância, conclui, e o povo de Lisboa que fez a República, impunha «dos poderes publicos» uma outra atitude. Mas, «as chinesas não curam, dão causa a infecções», diz outra nota do mesmo jornal, e elucida-se: «as chinezas percorrem o Algarve, trabalhando livremente nas varias povoações, como Villa Real, onde durante dois dias exerceram a sua habilidade, ganhando bastante dinheiro. Em Tavira tambem trabalharam, até que o delegado de saude representou á auctoridade administrativa, que as fez sahir da cidade no primeiro comboio. Não há em todo o Algarve um unico caso de cura, ou sequer melhoras, antes varios operados andam agora a tratar-se de infecções recebidas pela operação». Uma informação encomendada com vista a serenar os ânimos; as curandeiras foram acompanhadas de guardas até à fronteira, não poderiam ter oportunidade de fazer as ditas operações summarias.

A vontade de deitar abaixo as curandeiras era tão grande que jornais chegaram a publicar os valores acumulados por estas, em várias cidades algarvias. No entanto, a 3 de Dezembro O Algarve, Semanario Republicano, noticiou: «sem repercussão nas provincias e ainda n´estas do sul, Alemtejo e Algarve (...) veiu dar uma triste nota do estado dos espiritos na capital, a noticia dos tumultos provocados pelo impedimento determinado pela auctoridade á ignobil especulação d´uma familia de prestimanos d´uma nação estranha!» E, colocado-se do lado do governo, conclui que «ha que moralisar as multidões»... 

No dia 28, ainda se falava, na imprensa, dos «acontecimentos de ante-hontem», referindo-se que «são presos dois implicados no conflicto da Brazileira e um dos organisadores do comicio de domingo», acrescentando-se que «durante o dia, nada se passou digno de nota (…). No Rocio, pequenos grupos commentavam os ultimos acontecimentos, examinando outros os estragos nos estabelecimentos. Do governo civil sahiram hoje, em liberdade, mais tres presos, ficando ali apenas João Cerqueira e Domingos Soares, que a policia apurou serem cabeças de motim e que teem que responder por esse crime. Hoje foram presos Arthur dos Santos, o Maluco, João de Deus, ex-marinheiro, ambos envolvidos no conflicto da Brazileira. O primeiro encontra-se incommunicavel n´uma esquadra. Na estrada de Sacavem tambem foi hoje preso António Maria Pereira de Lima, um dos organisadores do comicio das chinezas.» Ajustes de contas entre revolucionários, já se vê. 
Sob o mote «Abusos», diz A Capital que «o que se passou no caso das chinezas não pode nem deve ser encarado como um incidente trivial. Não são só as suas consequencias tragicas que o attestam; são tambem, e porventura principalmente, as circunstancias em que se envolveu (...). Assim, o acto da policia (…) na violação nocturna d´um domicilio, offendeu, muito mais do que duas chinezas, a Constituição d´um povo livre, que não póde deixar passar em julgado um precedente que amanhã se poderá invocar para attentar muito maiores (…), um abuso que a democracia não permite (...)».

Ficou abalada a república. Jayme Victor, na revista Brasil-Portugal, de 1 dezembro, resume, inspirado, todo o escândalo ocorrido, tomando o partido do povo: «(...) Dá-se, por fim, o famoso caso das chinezas. Desesperados de longos annos, alguns de sempre, teem um raio de esperança. De todos os pontos da provincia, de todos os pontos da cidade, accorrem cegos a uma residencia modesta, onde, de subito, se encarna a Esperança em duas simples mulheres, onde um clarão surge (...). A favor d´ellas abrem-se campanhas, formam-se legiões, organisam-se em massa protestos populares contra a orientação das auctoridades que querem expulsar as duas chinezas. Ao chefe do Estado, ao parlamento, ao governo, ao chefe do districto, dirigem-se multidões compactas, que pedem, em nome de milhares de desgraçados, que se agarram, como naufragos, á unica taboa de salvação que se lhes depara, a conservação, em Lisboa, por alguns dias, de duas creaturas, que para elles vem, não do Oriente, mas do Céo, comprehendendo pela primeira vez porque é que se chama celeste imperio a essa China longinqua. Ha a Lei, gritam de toda a parte á multidão, já enorme; esperem, diz-lhe o chefe de Estado; isso não é comnosco, responde o parlamento; o ministro do interior encolhe os ombros, e em nome de uma lei, outra lei superior, a lei basilar da Constituição, se atropella, enganando os desgraçados, aos quaes sorria uma esperança, e ordenando que uma grossa força policial invadisse, de noite, a horas illegaes, um domicilio, para arrancar de lá, e conduzir para fóra do paiz, as duas chinezas. Aqui a inhabilidade publica aggrava a transgressão de uma lei capital. Não considerar clinicas as duas mulheres para não as integrar na lei que prohibe a clinica sem diploma nacional, seria a habilidade de momento, de que os politicos revelaram carencia absoluta. Bastaria attentar, para pô-la em acção, que ha por ahi aos centos massagistas, curandeiros, dentistas, bruxas e feiticeiros, que exercem a sua industria, sem com elles se metterem nem a lei nem as auctoridades, e que a acção d´elles pode ser therapeuticamente bem mais perniciosa que as das mulheres chinezas, porque a d´estas não se effectua senão sobre orgãos condemnados, que já nada teem a perder. (...) Exerceu-se ao contrario uma insolita violencia, e com uma lamentavel falta de previsão, deu-se origem aos acontecimentos do dia 26, que ensanguentaram Lisboa (...)».




O Occidente, Revista Illustrada de Portugal e do Estrangeiro, de 30 de Novembro, com ironia, fez, também, o relato dos acontecimentos: «que illustração de povo, que assombro, que progresso realisado em meio seculo, que até já chegou á Republica, com uma comprehensão tão nitida, tão completa dos seus deveres e dos seus direitos, que faz a admiração do mundo inteiro … (...) eis senão quando cahen em Lisboa duas chinezas, ao que parece attraidas pela República, esperando que esta lhe abrisse os braços, como lá pelo celeste imperio os seus irmãos os abriram á que por lá lhes appareceu. Ellas vinham muito seguras, de rabicho cortado, signal de participarem já da emancipação do seu povo, e por isso confiantes n´uma recepção carinhosa, fraternal como pobres correligionarias, pobres sim, porque se apresentavam modestamente, até com certa esqualidez, efeitos da jornada com pouca roupa, tão pouca que a traziam toda numas trouxinhas de mão. Desprovidas de aparatos, de apresentações, inofensivas, sem revólveres nem outras armas de viagem; apenas dois pausinhos, como dois lapis, e nelles toda a sua sciencia, toda a sua habilidade, toda a sua benemerencia e, ao mesmo tempo todo o seu ganha pão. Assim cahiram estas duas chinezas em Lisboa, e, em pleno Terreiro do Paço annunciaram a sua chegada e mais a dos pausinhos, com que principiaram a tirar dos olhos de cada um duzias de bichos, como quem tira burriés de dentro da casca com um alfinete. Era espantoso, maravilhoso; alguns cegos aproximaram-se, e ellas com algumas gotas de um liquido que applicavam nas fontes que massajavam com os dois pausinhos, faziam saltar dos olhos bichos como d´um queijo que os tivésse, e os cegos declaravam que já viam melhor! O povo extasiou-se, as filhas do Celeste Imperio Republicano do oriente cahiram nos braços dos seus irmãos da Republica do Occidente e já as não largaram. Principiou a correr a fama das suas curas maravilhosas; o maravilhoso é tudo neste povo peninsular. Vêr é a sua maior necessidade, é a sua ancia; tem razão. E se elle visse tudo quanto precisava vêr?! Se as chinezas tirando-lhe os bichos dos olhos da cara, elle visse melhor com os olhos da alma?! … Esta ideia entusiasmou o, já não seriam só cegos que rodeavam as chinezas. De gorra se metteram alguns capazes de vêrem um mosquito na outra banda, e á primeira prohibição das auctoridades para que as chinezas continuassem nas suas maravilhosas curas, a onda popular cresceu, percorreu as ruas de Lisboa, em representações ao governador civil, ao ministro do interior, ao parlamento, empurrada a onda de umas autoridades para as outras, sem dar vazão, até que pelas 3 horas da madrugada do dia 25, as pobres chinezas e os seus pausinhos fôram postas pela policia na fronteira de Badajoz, para irem tirar os bichos dos olhos dos visinhos hespanhoes. A Republica do Occidente não quis as suas irmãs da Republica do Oriente, mas o povo com toda a soberania que lle assopraram, insurgiu-se contra o rapto das chinezas e veiu para a rua clamar nos comicios, a que o acostumaram há annos para cá. Elle queria para ali as chinezas porque elle é que mandava, e por fim deu tudo num lamentavel motim popular em que muita gente ficou ferida por mais de duzentos e os mortos por mais de uma duzia! Tudo em Lisboa se tem transformado. As suas largas avenidas; a sua luz elétrica a jorrar do alto das lampadas de incandescencia; as toiletes parisienses das mulheres a desvendarem quanto os capotes encobriam; os automoveis accelerando o movimento de uma vida febril, em contraste com toda a fleuma e pachorra dos tempos idos. Uma Republica, emfim, como uma aspiração a melhores tempos. Mas o povo … na mesma; tudo postiço; tudo inconsciente. Amanhã vae consultar a madama Brouillard para saber se as chinezas cá voltarão a tirar-lhe as peneiras … os bichos dos olhos», artigo de um João Prudencio, inspiradíssimo.


E os políticos, como lidaram com os tumultos? A resposta encontra-se no que o ministro do interior declarou à imprensa: a boa-fé e a ingenuidade do povo fora «infamemente explorada por elementos reaccionários» que, como se verá, punham em causa a independência de Portugal. O povo ouviria isto, por certo. 


 


No dia 27, dia seguinte aos tumultos que abalaram a cidade, o assunto das chinesas volta ao parlamento. Augusto de Vasconcelos, Presidente do Conselho de Ministros e Ministro dos Estrangeiros, dá conta dos «acontecimentos tumultuosos»: «eu pedi a palavra porque ontem passaram-se em Lisboa acontecimentos graves». Talvez falasse baixo, que o assunto era delicado, ouvindo-se «mais alto, mais alto...», refere o Diário da Câmara de deputados. E continuou: «Dizia eu que tinha pedido a palavra para informar a Câmara de que ontem se passaram em Lisboa acontecimentos de uma certa importância (…). Sabe-se que se promoveram desordens em vários pontos da cidade; essas desordens tiveram um pretexto fútil, mas que foi aproveitado por pessoas já conhecidas da polícia nestes movimentos». Ouviu-se aprovação de muitos e prosseguiu: «obstinadamente, e em diferentes ocasiões», explicava, «se revoltam contra o regime, contra os seus homens de mais evidência» e «essas desordens começaram à tarde no Terreiro do Paço e foram aí rapidamente sufocadas, e à noite reproduziram-se no Rocio com maior violência, havendo agressões de importância à força armada. O Governo deu imediatamente, apenas se começaram a produzir as desordens no Terreiro do Paço, as mais rigorosas instruções para que qualquer tumulto fôsse reprimido, com muita prudência sim, mas com muita firmeza também; a firmeza necessária para que não houvesse desacato à força pública ou ás instituições». Muito aplaudido foi. O deputado França Borges requereu a generalização do debate e Brito Camacho pergunta: «O que é que se debate? O que é que se discute?», mas a Câmara, por maioria, considerou que era apropriado e vários deputados pedem a palavra. Iriam iniciar-se mais discursos quilométricos, claro está; eloquentes discursos como se fora uma competição entre os representantes do povo que, no momento, não se via representado. 

Machado Santos, também doente como Botto Machado no dia anterior, diz: «é com grande prejuízo para a minha laringe que falo nesta Casa, mas eu cometeria um crime contra o Dever, um crime contra a República, um crime contra a integridade da Pátria, se calasse a dor que me vai n'alma e me conservasse silencioso ante os acontecimentos (…) Reconheci ainda, em pleno Rocio, quando pretenderam desacatar-me que, por entre a grande massa popular, havia um grupo de arruaceiros que, ouvindo vitoriar o meu nome, se dirigiu contra mim e contra os que me aclamavam, em atitude agressiva». Querendo desvalorizar os apoiantes das curandeiras, refere que o grupo de arruaceiros inclui «homens que se aproveitam da arruaça para fins que se não atrevem a confessar, não ignorando que a desordem nas ruas trará o descrédito para a República e pode causar a perda da nacionalidade portuguesa. São homens sem pátria, que vivem simplesmente do tumulto e da desordem, homens que excitam as turbas, para que elas os auxiliem nas suas especulações». Muitos foram os apoios que recebeu. E como se viesse a propósito, finaliza pedindo ao parlamento e ao governo para que «o povo sinta bem a diferença que há entre uma monarquia e uma república, e também para que, duma vez para sempre, acabe o espectáculo deprimente que temos presenciado, há uns tempos para cá». E explica: «Infelizmente, a força armada já teve que intervir para restabelecer a ordem nas ruas», mas indigna-se de ver «os culpados, os arruaceiros, os profissionais da desordem» sem serem detidos pelas autoridades. E pede para continuar, uma vez obtido muito apoio: «tiveram a infâmia, querendo com isso tirar o pouco ou muito prestígio do meu modesto nome, de dizer que eu tinha feito fogo sobre o povo», e conclui que são precisos esforços conjugados para salvar a «querida Pátria».

António Granjo mostrou-se preocupado com o eco, fora de Lisboa, que os acontecimentos podem ter e que fora do país, a imprensa ao serviço da «reacção monárquica» vai explorar «torpemente» os tumultos, e refere que, por isso, tem «passado horas amargas e pensar seriamente no destino desta minha pátria e na marcha da República». Também não acredita na defesa das chinesas e diz que «quando a rua é simplesmente a escumalha de uma grande capital, de um porto cosmopolita, e quando essa escumalha começa por desprestigiar os homens da República e o Parlamento, e ataca aqueles que na oposição, melhor souberam interpretar as suas ânsias e mais alto levantar os seus ideais, quando, por não haver protesto plausível para lançar a perturbação nas ruas, essa escumalha se serve de duas chinesas para tal fim» não pode ter, conclui, «pela rua, a mais pequena consideração», pois, «sofre-se na verdade de uma grave crise de carácter, herdada da monarquia». Incrível! 

João Gonçalves, numa intervenção infeliz, diz que os factos «bem tristes» não traduzem «o desespero por se ter varrido a porcaria das chinesas». E prossegue: «toldou-se o meu espírito de tristeza, ao saber que o meu prezado amigo o Sr. Machado Santos, esse homem que tanto trabalhou para a República, aquele a quem em grande parte devemos o lugar que ocupamos, por um triz não foi morto, ontem Brito Camacho esteve para ser chacinado, António José de Almeida foi enxovalhado e infamemente maltratado». Ouviram-se risos e reage:«V. Exas. riem-se, de quê?»

Ramada Curto explica que «chacinado» é palavra «imprópria duma manifestação que fizeram à redacção da ´Luta´». João Gonçalves tenta desfazer a confusão: «o meu ontem significa em ontem com muitos dias. Referi-me à véspera da manifestação hostil ao Deputado António José de Almeida». Levantam-se protestos na esquerda e continuou: «os senhores doem-se, não gostam das verdades?» E mais protestos. «Para que é essa indignação tingida?» indagou; «Fingida!» gritaram Lopes da Silva e Ramada Curto. Azedas trocas de palavras. E o deputado ainda usando da palavra, entusiasma-se e discursa sem mostrar cansaço, dizendo a páginas tantas: «não compreendo que, tendo-se afirmado por toda a parte que a monarquia só tinha criminosos e ladroes, depois de implantada a República, parece só haver ingenuidades. Ninguém foi julgado ou condenado».

Ouvem-se apoios e sussuros e Brito Camacho, interrompendo, diz que pretende fazer um esclarecimento e refere que todos os ministros do governo provisório assentaram em publicar imediatamente o resultado das sindicâncias em que houve matéria crime e que as que não tinham matéria punível, entendeu-se que não valia a pena dar-lhes seguimento. Mais troca de palavras, de apoios e protestos.

Júlio Martins lamentou os factos ocorridos, esclarecendo que «tanto mais que de há muito via o povo português completamente divorciado da monarquia (…) e o povo escutava os republicanos, crente, convencido (…) passados onze meses, é esse mesmo povo que grita nas ruas: "Abaixo a República e vivam os bichos das chinesas!"». Conclui ser «bem triste ver os homens de prestígio da República, que arrastavam as multidões, serem hoje apupados». Ouve-se uma voz que diz ser assim, a História, e o deputado responde: «Mas, se é da História, justamente por isso se devem tirar as verdadeiras conclusões. O que se prometeu ao povo?» e entusiasma-se a falar, e até a mim, que me divirto imenso a ler as Actas, me cansou. Talvez tenha feito sono a Germano Martins que manifestou a intenção de «dizer duas palavras breves, simples e claras, em nome do Grupo Parlamentar Democrático» declarando dar ao governo «o mais completo apoio para manter a ordem pública dentro da lei».

Sá Pereira também discursou demoradamente. Disse que compreendia que «as multidões se apaixonem por sentimentos de ordem política», mas não entendia «como a história das chinesas desse em resultado os grandíssimos acontecimentos (...). Não posso compreender que para pôr termo a um tal fanatismo fôsse preciso a intervenção da fôrça armada». E mostrou-se convencido: «todos os republicanos, socialistas e anarquistas, para salvaguarda das nossas próprias ideias e para mantermos a nossa honra, temos o dever de congraçar-nos numa acção única a favor da Pátria e da República». Por fim, rematou: «tive ocasião de presenciar que dezenas de populares se deixaram profundamente apaixonar (...) entre a multidão alguém deu vivas à monarquia e de abaixo a República».

Carlos da Maia, deputado que viria a ser governador de Macau três anos depois, disse que os acontecimentos eram «produto evidente duma errada compreensão do momento grave que atravessa a nacionalidade portuguesa. A expulsão de duas curandeiras chinesas que a crendice popular imaginava operarem milagres foi o pretexto de que os agitadores se serviram para alarmar a cidade (…) atrás dos perturbadores seguia a massa enorme dos que, amando a República, começam a descrer dos seus homens condenando os seus processos. (…) A propaganda republicana, sempre demolidora, apontava os erros da monarquia realçando as suas fraudes, e ensinava ao povo que havia escândalos que só a República poderia aniquilar. Depois de treze meses de Govêrno republicano nada parece haver mudado (…), o povo que barafusta sob qualquer pretexto aproveitou a ocasião para mostrar o seu desagrado».

João de Menezes, que disse não pertencer a nenhum grupo nem partido do parlamento, depois de lembrar episódios passados consigo quando foi insultado por populares (provocando risos), referiu que Machado Santos, seu amigo, era culpado um pouco do que aconteceu, por cultivar o «bacillus da popularidade», sendo, no entanto, a maior culpa a da educação que se recebeu da monarquia. Mas, como tinha ensaiado, lá teve que meter a bucha: «a popularidade é a grande prostituta de que fala o poeta... presta-se a todos». Por fim, explica que os que, no dia anterior, chamavam traidor a Machado Santos, seriam os que «se, por desgraça da República e desta Pátria (...) a monarquia se restaurasse, haviam de aclamar o rei que entrasse triunfante em Lisboa». Muitos «Apoiado!» se fizeram ouvir. Como o discurso não parecia ter fim, o presidente lembrou que faltavam «apenas dois minutos para se entrar na ordem do dia». Protestos de quem havia passado a noite a redigir discursos obrigaram o presidente a dar voz a quem ainda não tinha dito de sua justiça. 

Simas Machado também levou tempo a discursar e, radical, afirmou: «Nós somos um país pobre, cujo crédito financeiro precisa ser robustecido á custa duma administração honestíssima, e precisamos ser também implacáveis para todos os desonestos, quer sejam republicanos, quer sejam monárquicos. Faça-se o balanço da situação do país, e tenha-se a coragem de dizer que, se for preciso pedir-lhe sacrifícios, que êles se lhe pedirão, e, se não quiser fazê-los, então que morra, porque só tem direito a viver, quem tem civismo, quem tem honra». Irra! Uma noite mal dormida para escrever uma coisa assim. Ao menos, que fizesse como o actual primeiro-ministro; quem não quiser fazer sacrifícios em Portugal, que emigre... 

Jacinto Nunes, cansado de tantos discursos acalorados e patéticos, para que alguma coisa de produtivo saísse da discussão, formularia e mandava para a mesa uma Moção de ordem, concluíndo a Câmara que o governo deve empregar todos os meios indispensáveis para o restabelecimento da ordem pública e da segurança individual. Mas, apesar de mostrar algum sentido prático, também usou da palavra demoradamente, até que perguntou ao ministro do interior «se soube, pelo chefe do distrito, se lhe foi comunicado no sábado que ontem a tal hora da tarde, num dado local de Lisboa, se realizava una comício?» E ainda: «V. Exa. sabe muito bem que não se podem realizar comícios nas capitais de distrito sem que se faça participação ao governador civil, com 24 horas de antecipação, indicando o local, hora, o objecto, o assunto de que se vai tratar no comício. Pergunto ao Sr. Ministro do Interior: Soube oficial ou extra oficialmente, se essas comunicações foram feitas, porque os comícios foram dois?».

O Ministro responde que não. Jacinto Nunes garante que «não foi feita participação à autoridade de todos quantos comícios há 3, 4 ou 5 meses se realizaram nesta capital» e questiona-se: «Porque se tolera tudo isto?» E assegura: «Esta audácia é o resultado da cobardia do Govêrno, dos poderes públicos. Se tivesse estado naquele logar um Ministro do Interior enérgico, que soubesse respeitar o seu lugar, havia de manter a ordem pública». Lamentará, no dia seguinte, não ter estado cado e, afiança que os «agentes provocadores têm a complacência da cumplicidade dos poderes públicos», lamentando que não estivessem presos uma vez que «o povo só respeita a energia e a coragem». Tornou a ler a moção de ordem.

Em tom discordante falou França Borges, frisando a meio do seu discurso: «não reconheço a importância que se tem atribuído aos acontecimentos porque os não julgo tão graves e extraordinários, que possa com justiça dizer-se que a República atravessa uma hora difícil (...) os acontecimentos de ontem são bem fáceis de explicar. Uma parte da imprensa, levianamente, cantou os feitos das chinesas. Isso, da parte do povo ignaro, provocou um certo movimento de curiosidade, e determinados indivíduos, que não sendo caixeiros intervieram na greve dos caixeiros, não sendo padeiros intervieram na greve dos padeiros, e, não comprando azeite, vieram, ao Parlamento reclamar contra o preço do azeite, esses indivíduos aproveitaram as chinesas para promoverem um movimento que, evidentemente, tinha um carácter de hostilidade à República. Esse movimento não foi, portanto, determinado pela marcha dos negócios públicos ou pelo procedimento dos republicanos. Os seus instigadores (...) arrastaram alguns ingénuos, mas em que não tomou parte o povo de Lisboa. Depois de se ter realizado o comício da Avenida, (…) vi uma multidão de quinhentas, ou seiscentas pessoas (...) não vi nenhum correligionário dos que tem acompanhado o partido republicano e a República. Essa multidão dava os mais insólitos gritos (…) se tivesse havido então a necessária intervenção (...) não teriam revestido o aspecto grave que tiveram depois no Terreiro do Paço e no Rocio. O facto de quinhentas ou seiscentas pessoas terem tomado parte nessas manifestações, não quer dizer que fôsse o democrático povo de Lisboa que praticasse os actos condenáveis (…). Houve indivíduos que promoveram tumultos e praticaram toda a série de atentados, sem serem castigados, e houve bons republicanos que andaram no meio da multidão, procurando apaziguar os espíritos e fazer obra de paz e ordem, e que foram brutalmente agredidos (…). Em resumo, o que peço é que se faça um inquérito sôbre os acontecimentos de ontem, para que, sendo possível, se castiguem aqueles que delinquiram, e ao mesmo tempo se processem os que foram instigadores de tumultos, porque êstes não são amigos do povo, são os seus especuladores». Miguel de Abreu concluíu que «não foram manifestações de republicanos, foram agressões e atentados contra a vida e a propriedade do cidadão (…) o que vi, foi que essa força, quando chegou ao Rocio, empregou primeiro meios dissuasórios para dispersar os manifestantes e só depois, quando agredida, se defendeu. Essa força foi recebida e atacada a tiro e só depois disso é que empregou meios violentos como era seu dever». 

Botto Machado, o bom coração da Câmara, tinha que falar, claro. Mesmo com o imposto repouso absoluto, preparou o seu discurso como de costume, dizendo que os políticos «infelizmente, ao marcharem para o poder, levam sempre pelos braços duas Messalinas insignes: pelo braço direito, levam a Messalina chamada Ordem; e pelo braço esquerdo, levam a Messalina conhecida na gíria política pelo nome de Razão de Estado. Assim acompanhados por essas duas marafonas, -e, coitados deles, eu lamento-os!- são obrigados a desmentirem, até mesmo sem quererem, as afirmações do seu passado, e a fazerem tábua raza ou bancarrota dos seus princípios de liberdade antes bem amados (…) houve, efectivamente, um jornal, O Século, que me deu não só como assistente, mas como tendo sido eu um dos oradores do comício onde se protestou contra o rapto e a expulsão das chinesas. É falso. (...). A minha intervenção, nesse assunto, foi a que tiveram outros Srs. Deputados, áparte o eu ter feito a proposta de se nomear uma comissão de técnicos, médicos, que, satisfazendo ao desejo da multidão que veio ao Parlamento, fôsse investigar se as duas chinesas produziam um trabalho de valor, ou eram apenas duas charlatas. Ainda nesta hora entendo que fora melhor ter-se atendido a súplica da multidão, porque talvez se tivesse evitado o derramamento de sangue e a perda de vidas sempre preciosas (…) mas daí, dizer-se aqui que o povo que ontem fez motins é um produto das sargetas, a escória social composta de caras patibulares e o mais que eu ouvi, contra isso protesto eu solenemente, porque o povo que eu vi ontem, na Baixa, foi precisamente o povo, o mesmo povo que sempre nos acompanhou, nos palmeou e nos ovacionou nos comícios». Perante os apupos, refere: «que me importa a mim com os apoiados ou não apoiados da Câmara, se eu estou dizendo a verdade inteira e sem artifício». Ah, mas tinha muito mais a dizer: «O povo é sempre o povo. E o eterno ludibriado, o eterno espoliado dos que estão de cima. O povo tem razões de queixa, e, muito naturalmente, exterioriza-as. Foi o que fez ontem. Eu, Sr. Presidente, sou insuspeito falando assim, visto que, ainda há só três dias, eu disse aqui, nesta Câmara, que, se reconhecia que o povo português tinha grandes virtudes, também o acusava de ter grandes vícios, oriundos da falta de instrução e educação, e da corrupção que sôbre êle exerceu o jesuitismo e a monarquia. Mas o que não é justo, o que não é digno, é que nós, na oposição, disséssemos ao povo que queríamos o povo rei (...) e, chegados ao poder, o tratemos como carne de canhão e ainda por cima venhamos aqui dizer que o povo saiu das sargetas, que é a escória, e que tem caras patibulares. Êsse povo que todos prometemos fazer rei (...) e que, depois de feita a República, continua a ser um povo pelintra, um povo rôto, um povo descalço, um povo faminto, um povo nu, um povo que só não é um povo-rei de opereta ou de comédia, porque continua a ser um deplorável povo-rei de tragédia, é ainda o mesmo povo que sofre, que paga, que sente e que, apesar disso continua a amar muito a República e se sacrifica por ela». Ufa; encontrei uma alma-gémea (aborrece toda a gente, empolgado com tudo). E prossegue: «as autoridades não podem, nem devem ter uma tal noção do que seja uma democracia, que deve governar pelo amor e não pelo terror». Este é o meu político, que, ainda diz: «quando seguia Rua Augusta acima, romperam os soldados da guarda republicana a cavalo da Rua da Vitória, e, em vez de seguirem pela rua, seguiram pelo passeio, quási me atropelando a mim, a outros homens e a senhoras que, como eu, iam pelo passeio. Depois, já no carro eléctrico, eu vi com pasmo, que junto à Madalena, onde não tinha havido gritos subversivos, onde não houvera o mais ligeiro conflito, onde ninguém reclamara a intervenção da autoridade, os guardas republicanos espadeirarem brutalmente alguns cidadãos inermes, por tal sinal que cinco comerciantes meus vizinhos, no bairro da Graça, e o alferes reformado, creio que do exército de África, de apelido Lima, que ficou com a capa toda rasgada das cutiladas». E pediu justiça: «sejam implacáveis com os que, revestidos de autoridade, exorbitaram tam brutalmente». Parece-me que só eu o aplaudiria.

Carlos Amaro, sarcástico, finaliza: «se as chinesas conseguiam lá fora tirar bichos dos olhos, aqui dentro conseguiram tirar magníficos e explendorosos discursos. Descobriram alguns Deputados que êste caso das chinesas era por efeito das sindicâncias ou falta de sindicâncias. Houve mesmo um ilustre Deputado, pessoa que muito respeito e admiro, que ligou êste caso das chinesas a Afonso Henriques, e que isto de chinesas já florescia no tempo da invasão filipina. Houve só dois Srs. Deputados que sôbre êste assunto não produziram largos discursos, foram os Srs. Germano Martins e Brito Camacho, que simplesmente se referiram à questão. Não lhes proponho um voto de louvor, mas acho que realmente merecem o agradecimento da Câmara».

O governo explicou que não poderia intervir na acção do poder judicial, mas que tinha dado ordem para que fossem passados mandados de captura contra os desordeiros que ainda não tinham sido presos. E, dirigindo-se ao único deputado de quem não recebeu inteiro apoio, o ministro do interior disse: «o Sr. Botto Machado levou o seu exagero, permita-me S. Exa. que lhe diga, ao ponto de afirmar que o que se passou ontem à noite fazia lembrar o que nos tempos ominosos do franquismo se passava. Há simplesmente uma diferença: é que nos tempos da monarquia, quando havia tumultos, se havia mortos e feridos, não era nenhum da força pública, e ontem houve 21 soldados feridos da Guarda Republicana, sendo um ferido de bala, 9 cavalos feridos de bala e um morto a tiro. Se houve feridos entre os populares, é porque a força pública foi agredida gravemente. Pergunto a S. Exa. se os filhos do povo, que estão encarregados da segurança, não tem tanto direito a ser respeitados nas suas vidas como os outros? (…) estamos perante um escândalo gravíssimo». E, quando concluíu, pediu, a propósito da moção de Jacinto Nunes, que se acrescentasse «a palavra "legais", porque o Govêrno, para manter a ordem, não precisa empregar senão os meios legais». 

O assunto podia ter morrido aqui, mas não. No dia seguinte, 28 de novembro, Adriano de Vasconcelos volta à carga: «Hoje, que a ordem está restabelecida, que o Govêrno está cheio de força com o apoio que o Parlamento lhe deu, e que Lisboa (...) voltou à normalidade», não via inconveniente em chamar a atenção do ministro do interior para um abuso praticado pela autoridade de que resultou os tumultos que se originaram nas ruas, pois, de acordo com a imprensa, a força pública entrou em casa de um cidadão, arrebatou duas mulheres, fê-las meter num automóvel, transportou-as para a Azambuja e dali para Badajoz, o que representava um ataque à Constituição e um abuso do poder. 

O ministro do interior respondeu que, no seu entender (e visto ter recebido todo o apoio dos deputados) o parlamento não era o local apropriado para tratar do «assunto das chinesas», mas aproveitava a oportunidade para «desfazer a lenda de que a autoridade entrou violentamente numa casa para dela tirar as chinesas. A autoridade não fez semelhante cousa; as chinesas é que quiseram sair, porque estavam verdadeiramente apavoradas com o barulho que se fazia em roda delas, e a polícia, de acordo com elas (…) fê-las transportar até a Azambuja e dali para a fronteira», justificando-se tal como o tinha feito aos jornais.

Adriano de Vasconcelos, fingindo acatar a justificação, diz: «me regosijo que se tivesse finalmente averiguado, que nenhuma violência da Constituição se cometeu (...); e regosijo-me também por ver que o estudo das línguas orientais está tão adiantado em Portugal, que foi facílimo compreender que as chinesas o que queriam era ir-se embora, para se verem livres da perseguição do povo!...»

Jacinto Nunes, ainda quis intervir, para referir que através do governador civil tinha sabido que, afinal, «os comícios anteriores aos de domingo tinham sido precedidos da participação oficial e que, só com os realizados naquele dia se não tinha cumprido êsse preceito». Artur Costa frisa que, de facto, «Lisboa está (...) infestada de vadios. E falo assim porque ontem tive ocasião de presenciar que os que faziam mais barulho e maiores tumultos eram rapazes de quinze a vinte anos, que atacavam a fôrça pública à pedrada. Eu vi, no Largo de S. Domingos, rapazes arrancarem pedras da rua e atirarem com elas à guarda republicana, e a lista dos indivíduos presos acusa uma boa percentagem de menores». E para os menores, a solução proposta: «recolhê-los onde se possam regenerar pelo trabalho». O trabalho liberta, se dirá alguns anos depois. Faustino da Fonseca pareceu ser tão ponderado que até lembrou o deputado Botto Machado: «o público foi de violência em violência (…) conhecido o mal, divirjo do processo de cura. Nada resolve a violência, usada largamente no tempo da monarquia. Precisamos de mais justiça e de mais benevolência. Sob o pretexto das chinesas dos olhos, protestam os que estão descontentes por causa do encarecimento da alimentação, os que se viram desiludidos na sua aspiração do milagre social». Aplaudo.


E as curandeiras, que foi feito das curandeiras? Ficaram em Espanha por pouco tempo, ou quase nenhum. Cá para mim, foram mesmo ajudadas pelo advogado que se ofereceu para as defender, em Lisboa, e que a seu favor discursou num dos comícios. É que este advogado, a fazer fé nos anúncios publicados nos jornais, era o único que tinha escritório no Brasil. E, em Março de 1912, as curandeiras eram fotografadas no Rio de Janeiro e, de novo, apareciam nos jornais. Foi, aliás, no mesmo edifício da redacção d´O Jornal do Brazil que instalaram um consultorio, que noticiava; «está sendo muito commentada a cura, feita pelas chinezas». Parece que, apesar disso, acabaram sendo presas.
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